11.2.07

 

Um Conveniente Pregador da Verdade Intermitente



O mais ruidoso arauto dos perigos do aquecimento global passou esta semana por Lisboa no exercício do seu superior magistério.

Com enorme aparato, meia-Lisboa elegante, abastada e presunçosa, no geral, acorreu a ouvir o facundo Al Gore, ex-Vice-Presidente dos EUA, nos anos dourados da supremacia mundial americana de Bill Clinton, ex-candidato a Presidente dos EUA, derrotado pelo tosco G. W. Bush, ainda que de forma suspeitosa, mas com surpresa, apesar de tudo.

Sempre os socialistas portugueses andaram de mãos dadas com os democratas americanos. Abençoaram Clinton e Gore, quando ambos dirigiam bondosamente, por certo, os destinos da maior potência da Humanidade.

António Guterres, recordemo-lo, quis até fazer de Clinton distinto membro da Internacional Socialista, velha instituição de veneráveis pergaminhos, mesmo depois de ter desistido de lutar pela implantação da sua primitiva doutrina inspiradora, há muito encerrada em funda gaveta, provavelmente a mesma onde também Mário Soares um dia a colocou, a bom recato, quando desempenhou os seus pouco venturosos cargos de Primeiro-Ministro, não para ele, claro, que tudo o que toca transforma em gozo pessoal, hedonista impenitente, mas para quem, ordinariamente, os sofreu, fora do seu largo manto de patriarca socialista.

Na verdade, como eu acho patuscos estes presumidos socialistas, que julgam tudo lhes ser permitido e tolerado, desde que cumpram o seu pequeno ritual de impropérios às ditaduras pretéritas e futuras, ao mesmo tempo que nos prometem os dias risonhos de amanhã, a troco do nosso parco esforço de lhe confiarmos regularmente o imprescindível voto.

Mal saem dos Governos, logo o mundo inexoravelmente regressa à sua antiga barbárie, aqui, ou em qualquer outro lado de onde episodicamente se vejam arredados do Poder. Nada de socialmente bom se consegue, sem o concurso destes novéis benfeitores da Humanidade.

E lá foram todos, do Governo e das Empresas, da Banca e do Espectáculo saudar o conspícuo democrata Profeta, que, com veemência, lhes perorou sobre os malefícios das agressões ao ambiente, à nossa casa comum, a Terra, com números aterradores e apocalípticas previsões, que eles escutaram num momento, para rapidamente tudo esquecerem, de regresso aos seus reluzentes bólides, pletóricos de força, pelos muitos cavalos com que o engenho dos homens os aparelhou, para seu ambicionado conforto, se não merecido, pelo menos democraticamente autorizado.

Sempre poderíamos perguntar a este garboso apóstolo das verdades inconvenientes, de incógnita, mas certamente benfazeja Organização, que acções, que medidas ele e o seu bom companheiro (camarada soaria excessivo) Clinton fizeram ou tomaram para nos pouparem às calamidades de que agora tão gravemente nos advertem ?

Palpita-me, no entanto, que, na resposta, seríamos inundados de extensas listas de medidas altamente eficazes, de capital importância, que só a irremissível perversidade de Bush Júnior prontamente se encarregaria de invalidar.

Porém, como o providencial senso de justiça do povo americano felizmente não dorme, dentro de pouco tempo tudo voltará seguramente à anterior beatitude democrática, com a eleição de novo Presidente amigo do ambiente, como Al Gore, como Clinton, talvez até nem seja preciso procurar fora desta última família.

E, outra vez, um concerto de anjos, por esse mundo fora, aclamará a nova luz redentora da Casa Branca : os soldados regressarão a casa, o Iraque e o Afeganistão retomarão a sua normalidade guerreira, até que encontrem os seus inspirados líderes, cheios do habitual fervor haurido na proverbial força pacífica do Islão, a que a Europa, com a sua compreensiva mansidão, dará o seu acordo e a sua cooperação, para bem da convivência e da concórdia entre todos os Estados e Nações da Terra.

Tudo isto, Política e Ambiente, meus caros concidadãos, se encontra complexamente ligado, mas, pela módica quantia de mil e quinhentos euros por minuto, o Profeta Al Gore explica e clarifica, com a preciosa ajuda do miraculoso Power Point, de frases curtas e certeiras, profusamente coadjuvadas por gráficos, tabelas, desenhos, vídeos e anedotas – não há conferência ou simples apresentação de americano que não seja polvilhada de ditos humorísticos, nem sempre ajustados às idiossincrasias dos autóctones, mas, com o tempo, tenhamos confiança, a americanização das culturas eliminará também esse pequeno óbice – todos os pormenores, todos os segredos da actual desordenação do Mundo.

Não admira, por isso, que Al Gore tenha de se deslocar em jacto particular, longe dos inevitáveis enfados, dos horários inconvenientes, das bichas para registo de bagagem, dos insuportáveis tempos de espera nas comutações de destinos, todo um rol de intoleráveis empecilhos, absolutamente incompatíveis com a urgência da sua missão.

Alguns, sempre os mesmos mal intencionados, farão uns cálculos ao desperdício de energia, chegarão a uns rácios absurdos quanto a gases de efeito de estufa produzidos pelo gasto de combustível, esse líquido diabólico, que nos dá o conforto pessoal, mas nos envenena o ambiente, assunto aqui piedosamente esquecido, por virtude dos fins últimos a que tal personagem se votou, por nossa geral salvação, é bom lembrar !

Com um pouco de compreensão e de sentido político, votando a população mundial nos candidatos democratas, na América, socialistas, na Europa, a Terra voltará a ser respeitada e a presente ameaça oportunamente esconjurada por mais umas dilatadas centúrias, quem sabe se por eras, até ao final redentor dos tempos.

Entretanto, quem terá tido a inconveniente ideia de falar nos honorários do infatigável Pregador, insignificantes bagatelas, na deleitosa contabilidade dos ganhos que das suas iluminadas palavras hão-de brotar, para gáudio de uma Humanidade perplexa e amedrontada com a corrente incúria ambiental ?

Em vista de tais benefícios, não nos cabe senão desejar, de semblante radioso, que mil pregações, como as de Al Gore, floresçam, para usar uma expressão do especial agrado do actual Presidente da Comissão Europeia, outro alegre e bem sucedido benfeitor desta nossa velha Humanidade, atónita e expectante de tanto malabarismo mediático, de democrática e socialista inspiração, que mais pretenderíamos nós, afinal, cépticas criaturas ?

AV_Lisboa, 11 de Fevereiro de 2007

Comments:
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Excelente artigo. Oportuno, conciso e contundente. Parabéns!
Claro que nestas circunstâncias Portugal não perde uma única oportunidade de mostrar o seu provincianismo bacoco e parolo dando a qualquer palhaço (ou político defunto, o que vai dar ao mesmo) honras de estado.
 
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